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Novo guia da pediatria muda a forma de lidar com telas

Após novas diretrizes, especialista explica como o uso de telas na infância influencia o desenvolvimento das crianças

Criança usando dispositivo móvel em casa ilustra discussão sobre uso de telas na infância após novo guia da Academia Americana de Pediatria.
Novo guia da pediatria orienta que o uso de telas por crianças seja analisado dentro de um “ecossistema digital” - Foto: Shutterstock

O uso de telas na infância passou a ser visto de forma diferente pela pediatria. Em 2026, a Academia Americana de Pediatria (AAP) lançou um novo guia que muda a forma como pais, profissionais de saúde e educadores devem lidar com a relação de crianças e adolescentes com o mundo digital.

A principal mudança é sair do foco exclusivo no tempo de tela. Agora, a orientação é olhar para o chamado ecossistema digital. Isso inclui não só o tempo de uso, mas também os conteúdos, as plataformas, as relações familiares e o contexto em que a tecnologia está presente.

Segundo a pediatra Dra. Anna Dominguez Bohn, formada pela USP e especialista em Neurociência e Desenvolvimento Infantil, essa mudança é um avanço.
“Limitar apenas o tempo de uso já não é suficiente. Precisamos observar os ambientes digitais, os contextos e a qualidade das interações”, explica.

Por que contar só o tempo de tela já não basta

Durante anos, as recomendações giravam em torno de quantas horas a criança poderia passar diante de uma tela. O tempo continua sendo importante, mas deixou de ser o único critério.

O ambiente digital atual é pensado para prender a atenção. Plataformas usam algoritmos, notificações e estímulos constantes para manter o usuário conectado. Isso também atinge crianças e adolescentes.

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Por isso, duas horas de uso podem ter efeitos bem diferentes. Uma videochamada com a família não tem o mesmo impacto que horas em um aplicativo com conteúdo inadequado ou estímulos excessivos.

O que é o “ecossistema digital” na infância

A AAP usa o termo ecossistema digital para definir todos os ambientes tecnológicos que fazem parte da rotina das crianças. Isso inclui televisão, celular, tablet, redes sociais, jogos, aplicativos e assistentes virtuais.

Esse conjunto influencia diretamente o desenvolvimento infantil. Pode afetar o sono, a atenção, a linguagem, o comportamento e as relações sociais.

Por isso, a recomendação é olhar para as telas de forma ampla. Pais e responsáveis devem revisar com frequência como a tecnologia está presente na rotina da família e ajustar regras conforme a idade da criança e as mudanças no mundo digital.

Como as telas influenciam o desenvolvimento infantil

O uso excessivo ou sem supervisão pode afetar áreas importantes do desenvolvimento. Entre os principais pontos de atenção estão o sono, a concentração e a regulação emocional.

Usar dispositivos antes de dormir, por exemplo, pode prejudicar o descanso. Já o consumo constante de conteúdos muito rápidos pode dificultar a concentração em tarefas escolares e conversas presenciais.

As telas também influenciam as relações sociais. A exposição precoce às redes sociais, sem orientação, pode afetar a autoestima e a forma como a criança se enxerga.

Proteção digital infantil é responsabilidade de todos

O novo guia reforça que a responsabilidade não é só dos pais. A proteção das crianças no ambiente digital deve ser compartilhada.

Escolas, plataformas, comunidades e até formuladores de políticas públicas têm papel importante. Isso envolve moderação de conteúdo, regras mais claras de privacidade e limites para publicidade voltada ao público infantil.

Essa visão reconhece que as famílias, sozinhas, nem sempre conseguem controlar tudo o que chega até as crianças.

O uso do celular pelos adultos também interfere

O guia chama atenção para a chamada technoference. O termo descreve quando o uso frequente de celulares pelos adultos atrapalha a interação com as crianças.

Pais muito distraídos por telas podem comprometer o vínculo, a atenção e a segurança emocional dos filhos. Além disso, o comportamento dos adultos serve de exemplo.

Para a Dra. Anna, o uso consciente é essencial.
“O mundo digital pode aproximar, quando há uso conjunto e orientação. Mas pode afastar quando substitui presença e diálogo”, afirma.

Como aplicar as novas orientações na rotina

A AAP não recomenda proibir totalmente as telas. A orientação é criar um Plano Familiar de Mídia.

Esse plano deve definir onde, quando e por quanto tempo os dispositivos podem ser usados. Também é importante acompanhar os conteúdos, incentivar atividades que estimulem aprendizado e evitar telas em momentos importantes, como refeições e antes de dormir.

Usar a tecnologia junto com a criança e conversar sobre o que ela consome ajuda a transformar a tela em ferramenta de desenvolvimento, e não de isolamento.

O principal recado do novo guia

Para a Dra. Anna Dominguez Bohn, o desafio atual não é tirar a tecnologia da infância. É reorganizar a forma como ela faz parte da rotina.

“As telas devem apoiar o desenvolvimento emocional, social e cognitivo, e não limitá-lo. Isso exige diálogo, presença e escolhas conscientes dos adultos”, resume.

Ao ampliar o olhar sobre o uso de telas, o novo guia reforça que informação de qualidade e acompanhamento são essenciais para proteger a saúde e o bem-estar das crianças.

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