Câncer é uma palavra que ninguém quer ouvir em uma consulta de rotina. Mas foi exatamente isso que aconteceu com o ator Lúcio Mauro Filho, que revelou ter recebido o diagnóstico de câncer no intestino durante um check-up.
A descoberta aconteceu depois que ele concluiu o tratamento de complicações provocadas pela Covid-19. O ator contou a história em entrevista ao programa Alt Tabet, do Canal UOL.
“Quando terminou o tratamento, fiz um check-up. Aí descobri um câncer no intestino. Eu nunca contei isso para ninguém”, revelou. Lúcio Mauro Filho não informou o estágio da doença nem deu detalhes sobre o tratamento realizado. Ele também comentou que enfrentou uma forma mais intensa da Covid-19 e crises de pânico durante o período de recuperação.
O relato chama atenção porque a descoberta não partiu de um sintoma evidente, e sim de exames de rotina feitos por outro motivo. Esse tipo de situação é mais comum do que parece quando o assunto é câncer colorretal.
Câncer no intestino pode não dar sinais
Mudanças persistentes no funcionamento do intestino podem indicar que é hora de buscar avaliação médica. O coloproctologista Dr. Danilo Munhóz explica que sintomas como prisão de ventre, diarreia recorrente, sangramento e emagrecimento sem causa aparente não devem ser ignorados.
“O que mais deve chamar atenção não é apenas um sintoma específico, mas uma mudança no comportamento habitual do intestino. Uma pessoa que sempre evacuou normalmente e passa a apresentar prisão de ventre persistente, diarreia recorrente, dificuldade para evacuar ou sensação de que não conseguiu esvaziar completamente o intestino precisa observar isso com atenção”, explica o especialista.
Segundo ele, sangramento nas fezes, dor abdominal frequente, anemia, cansaço sem explicação e emagrecimento involuntário também podem aparecer. “O câncer colorretal, porém, tem uma característica que precisamos sempre lembrar: ele pode estar presente durante algum tempo sem produzir sintomas importantes”, alerta.
Sinais simples exigem investigação detalhada
Esse é justamente o ponto de atenção reforçado por outros especialistas. Um levantamento sobre a doença no Paraná apontou que os principais sinais de alerta são sangue nas fezes, alterações persistentes no funcionamento do intestino e mudanças no hábito intestinal sem causa aparente.
Há ainda a tendência de buscar explicações simples para sinais que merecem investigação mais cuidadosa. “A pessoa vê sangue e pensa que é hemorroida, emagrece e atribui ao estresse, fica anêmica e simplesmente começa a tomar ferro. O risco está justamente em tratar o sintoma sem investigar sua origem”, afirma Dr. Danilo Munhóz.
Ele reforça que nem todo sangramento ou alteração intestinal representa câncer. “Não significa que todo sangramento ou alteração intestinal seja câncer, longe disso, mas sintomas persistentes, recorrentes ou diferentes do padrão habitual precisam ser avaliados. Quanto mais cedo identificamos uma doença colorretal importante, maiores são as possibilidades de tratamento e de cura”, completa.
Câncer colorretal e a importância do rastreamento
Investigar um sintoma é diferente de fazer rastreamento. O rastreamento deve ser realizado mesmo por pessoas que não apresentam nenhuma queixa, justamente porque o câncer pode se desenvolver de forma silenciosa.
“Quando o paciente já apresenta sangramento, anemia ou mudança do hábito intestinal, não estamos mais falando simplesmente em rastreamento, estamos investigando uma queixa. O rastreamento é feito justamente em pessoas que estão se sentindo bem”, explica o coloproctologista.
Segundo ele, esse é um conceito fundamental no câncer colorretal, porque a ausência de sintomas não garante ausência de doença. “Podemos encontrar pólipos ou até tumores em fases iniciais em pessoas que não apresentam nenhuma queixa intestinal”, reforça.
A importância da colonoscopia
Para pessoas de risco habitual, diversas diretrizes internacionais recomendam iniciar o rastreamento a partir dos 45 anos. No Brasil, o SUS passou a adotar o teste imunoquímico fecal para pessoas assintomáticas entre 50 e 75 anos, um exame que identifica pequenas quantidades de sangue oculto nas fezes e amplia o diagnóstico precoce.
A colonoscopia continua com um papel importante nesse processo. “A colonoscopia tem uma vantagem adicional muito importante porque, além de diagnosticar, permite retirar pólipos durante o exame. E isso pode interromper a sequência que levaria alguns desses pólipos a se transformarem em câncer anos depois”, afirma Dr. Danilo Munhóz.
Ele lembra que a idade é apenas um ponto de partida. Pessoas com histórico familiar de câncer colorretal, pólipos importantes, doenças inflamatórias intestinais ou síndromes hereditárias precisam de avaliação individualizada e, em alguns casos, começam o acompanhamento bem antes dos 45 anos.
Câncer no intestino e fatores de risco
O risco de desenvolver câncer colorretal está relacionado a uma combinação de fatores genéticos, idade e hábitos acumulados ao longo da vida. Entre os aspectos modificáveis estão sedentarismo, obesidade, tabagismo, consumo excessivo de álcool e alimentação com poucas fibras e presença frequente de carnes processadas.
“Quando falamos em câncer colorretal, não existe um único fator responsável pela doença. Existe uma soma de predisposição genética, envelhecimento e exposições acumuladas durante a vida”, explica o especialista. Histórico familiar, determinadas alterações genéticas e doenças inflamatórias intestinais aumentam o risco e não são fatores que conseguimos modificar, segundo ele.
“Por outro lado, existem aspectos sobre os quais temos algum controle, como obesidade, sedentarismo, tabagismo, consumo excessivo de bebidas alcoólicas e um padrão alimentar com poucas fibras e consumo frequente de carnes processadas. O risco deve ser entendido como resultado dessa combinação, e não como consequência de um único alimento ou comportamento”, complementa.
A prevenção precisa ser encarada como um cuidado contínuo
Atividade física regular, manutenção de um peso saudável, alimentação rica em fibras, frutas, verduras, legumes, grãos e cereais integrais, redução de carnes processadas, além de evitar o tabagismo e moderar o consumo de álcool são medidas que ajudam a reduzir o risco.
“Mas há um ponto que considero fundamental: estilo de vida saudável não substitui rastreamento. Podemos diminuir riscos, mas não conseguimos zerá-los. A melhor estratégia é combinar bons hábitos com atenção aos sinais do organismo e realizar os exames de prevenção no momento adequado”, conclui Dr. Danilo Munhóz.
A história de Lúcio Mauro Filho reforça essa mensagem. A doença foi encontrada em um exame de rotina, sem que ele tivesse buscado o check-up por causa de um sintoma específico relacionado ao intestino. É esse tipo de investigação preventiva que pode antecipar diagnósticos e ampliar as chances de tratamento bem-sucedido.


































